Política Crise fiscal
Flávio x Lula: crise fiscal e peso das promessas são alguns dos dilemas do futuro presidente
Além de enfrentar a desconfiança de quase metade da população, o vitorioso terá que administrar a frustração com planos que não serão cumpridos  Leia mais em: https://veja.abril.com.br/politica/flavio-x-lula-crise-fiscal-e-peso-das-promessas-sao-alguns-dos-dilemas-do-futuro-presidente/
24/10/2026 10h38
Por: REDAÇÃO
 
GASTANÇA - Lula: se eleito, o presidente será instado a cumprir o bilionário pacote eleitoreiro  (Ricardo Stuckert/.)

Nunca foi tão difícil vencer uma eleição presidencial. Os dois candidatos finalistas passaram ao segundo turno com uma pequena diferença entre eles: 2,2 milhões de votos ou 1,8 ponto percentual, o menor índice registrado desde a redemocratização. Os dois candidatos são rejeitados por cerca de metade do eleitorado. E os dois candidatos — por partilhar do mesmo pecado de atacar muito e propor pouco — também não conseguiram cultivar apoios consistentes no eleitorado independente, considerado o fiel da balança na votação. Pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira 21 mostrou que as intenções de voto espontâneas no presidente Lula e no senador Flávio Bolsonaro caíram dentro da margem de erro, com ambos marcando 40%, enquanto a fatia dos indecisos duplicou de 7% para 14%. A disputa continua aberta e poderá ser definida no photochart, com uma vantagem apertada para o vencedor. Em 5 de janeiro, o eleito assumirá um país repleto de problemas, cindido e ansioso por soluções. No exercício do mandato, ele provavelmente perceberá que governar, muitas vezes, pode ser bem mais complicado do que ganhar uma eleição.

TESOURA - Flávio: se eleito, o senador terá de enfrentar a impopularidade de um profundo corte nas despesas (Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro/.)

Um dos desafios do futuro presidente será lidar com uma sociedade dividida e refém da chamada polarização afetiva, na qual os principais grupos políticos não se consideram apenas adversários, mas se tratam como inimigos a ser aniquilados. Não há diálogo entre as partes, tal qual havia entre petistas e tucanos no passado. Mesmo gestos mínimos de civilidade, como um cumprimento dos postulantes à Presidência diante das câmeras de televisão, foram deixados de lado. E nada indica que haverá mudança nesse quadro. Em 2022, Lula derrotou Jair Bolsonaro com a ajuda de uma frente ampla, consolidada a partir do convite a Geraldo Alckmin — ex-PSDB, a quem derrotou em 2006 — para que fosse o vice de sua chapa. De volta ao Planalto e honrando a tradição hegemônica do PT, abandonou o conceito de frente ampla.

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Já Flávio Bolsonaro até tentou posar de conciliador no início da campanha, mas logo abandonou o figurino. O senador já deixou claro que defenderá iniciativas que dividem a sociedade. Ele declarou, por exemplo, que livrará da prisão seu pai, Jair Bolsonaro, a tempo de o capitão lhe colocar a faixa presidencial no dia da posse — caso, obviamente, vença o segundo turno. O Zero Um e a bancada de senadores do PL também querem dar prioridade à votação de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Na mesma toada, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, o Zero Três, avisou que, se o irmão dele se tornar presidente, promoverá uma caça às bruxas no Itamaraty contra diplomatas que supostamente boicotaram o governo do pai. Há a possibilidade de tentativas de revanches, que podem interditar ou atrapalhar a tramitação de propostas de interesse do país. “O ideal seria que o governo começasse com uma grande conversação nacional. Só se reconecta um país dividido com uma postura equilibrada, madura, com ações corajosas para consolidar as bases institucionais, política e econômica”, diz Michel Temer. “Sem viés ideológico, com viés de pacificação”, completa o ex-presidente.

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POPULISMO – Tarifa Zero: candidato do PT prometeu transporte público gratuito nos fins de semana (Angelica Alves/Fotoarena/.)

Restabelecer canais de diálogo e baixar a fervura da disputa política será fundamental para que o presidente eleito tenha chance de encaminhar soluções para o maior desafio econômico do país: o desarranjo das contas públicas. Desde o início do terceiro mandato de Lula, a dívida brasileira saltou de 72% para 83% do PIB. O crescimento desordenado dos gastos tem impactado de forma negativa as taxas de juros, sufocando financeiramente famílias e empresas. Diante desse cenário, formou-se um consenso de que algum ajuste fiscal terá de ser feito, sob pena de o próximo governo não ter recursos para bancar programas sociais, investimentos e até o custeio da máquina pública. As equipes técnicas de Lula e Flávio Bolsonaro divergem sobre o receituário a ser adotado, a intensidade das medidas e o horizonte de implantação destas, enquanto os candidatos fogem do assunto, já que falar em cortes durante a campanha significaria perder votos. Na sua tentativa de virar o jogo, Lula tem pegado carona na promessa de Flávio Bolsonaro de promover um “tesouraço” para dizer que o oponente cortará programas sociais, como o Bolsa Família.