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Dia da Terra: sem justiça social não haverá justiça climática

Sem ouvir aqueles que vivem em profunda conexão com a natureza, seguiremos procurando soluções onde elas nunca estiveram

Gilberto Moraes
Por: Gilberto Moraes Fonte: Ascom
23/04/2026 às 10h25
Dia da Terra: sem justiça social não haverá justiça climática
Foto: Reprodução

Em 22 de abril, o mundo celebra o Dia da Terra — data criada em 1970, nos Estados Unidos, e transformada em símbolo global da consciência ambiental. Mais do que uma efeméride, o Dia da Terra deveria servir como convite à reflexão sobre uma verdade cada vez mais evidente: a crise ambiental não atinge a todos da mesma forma.

As enchentes, secas prolongadas, queimadas e ondas de calor têm CEP, cor e classe social. Seus efeitos recaem com mais força sobre populações periféricas, comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas, ciganos e grupos historicamente marginalizados. Em outras palavras, a emergência climática escancara desigualdades antigas e produz novas injustiças.

Não basta, portanto, discutir metas abstratas de sustentabilidade ou repetir slogans verdes. A agenda ambiental do século XXI precisa incorporar, de forma definitiva, a dimensão da justiça social e racial. Isso significa reconhecer que aqueles que menos contribuíram para a degradação ambiental costumam ser os que mais sofrem suas consequências.

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No Brasil, essa realidade se impõe com clareza. Comunidades tradicionais espalhadas por todos os biomas nacionais preservam saberes ancestrais, modos sustentáveis de produção e relações equilibradas com a natureza. São populações que conhecem o ritmo das águas, o manejo da terra, a proteção das sementes e o uso racional dos recursos naturais. Enquanto parte do modelo econômico dominante se ancora na exaustão dos ecossistemas, esses grupos oferecem exemplos concretos de convivência respeitosa com o meio ambiente.

É preciso inverter a lógica histórica que os tratou como obstáculos ao “progresso”. Quilombolas, indígenas, ribeirinhos, extrativistas e ciganos não representam atraso algum. Ao contrário: guardam experiências valiosas para a construção de um futuro sustentável. Proteger seus territórios, assegurar seus direitos e ampliar sua participação nas decisões públicas não é favor estatal — é estratégia inteligente de país.

Quando se fala em transição ecológica, convém perguntar: transição para quem? Se o novo modelo econômico repetir exclusões antigas, estaremos apenas pintando de verde velhos privilégios. O desenvolvimento sustentável precisa gerar renda, segurança alimentar, acesso a políticas públicas e dignidade para quem vive nos territórios historicamente esquecidos.

O Dia da Terra, portanto, não deve ser apenas uma celebração simbólica. É um chamado político e moral. O planeta não será salvo apenas por tecnologia, mercados de carbono ou discursos protocolares em conferências internacionais. Será salvo quando a proteção ambiental caminhar lado a lado com democracia, inclusão e respeito aos povos que há séculos sabem cuidar da terra.

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Sem justiça social, não haverá justiça climática. E sem ouvir aqueles que vivem em profunda conexão com a natureza, seguiremos procurando soluções onde elas nunca estiveram.

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